Mergulho no universo Hilda Hilst

Nos últimos 6 meses estive mergulhado num profundo processo de pesquisa com a querida amiga e artista, Karina Couto. Um mergulho onde respiração e asfixia eram quase a mesma coisa. Um nadar de braçadas em letras, palavras, frases, figuras de linguagem, traduções, interpretações e distorções de sentidos. Descoberta constante de significados a cada nova leitura. Imensidão velada e revelada.

 

O infinito navegado é o da escritora e poeta Hilda Hilst; universo único. Poucos conseguiram construir uma obra literária tão vasta, múltipla e singular. Fascinante. Não só a obra, mas a pessoa. Uma mulher forte e feminina, livre e reclusa, disciplinada e boêmia, profana e sagrada, sombria e luminosa. Muitas… cujas verdades estão em entrevistas, poesias, teatro, ficção. À frente do seu tempo. Talvez por isso tenha sido tão incompreendida. Reclamava que não era lida. E - ao que parece - está sendo redescoberta, nunca esteve tão atual.

Muita leitura, hipóteses, testes, residência artística na Casa Do Sol (fazenda próxima a Campinas onde a escritora viveu e produziu por aproximadamente 40 anos), muitas fotos, desenhos, sons, reflexão e discussão. Tudo isso fez parte da pesquisa e da criação.

O resultado, também com a Karina Couto, são 2 obras de arte. Ambas tratam - em alguma medida - de tradução e metalinguagem. Discutem a ganho e perda de significado, aquisição de novas leituras e descoberta de novos caminhos interpretativos.


Rastro de corpo sonoro, 

2017/2018
fotografias, desenhos, partitura e peça sonora
caderno 22 x 30 cm
desenhos com grafite em papel vegetal 80 x 160 cm

 Detalhe da obra Rastro de Corpo Sonoro (Karina Machado e Eduardo Borém)

Detalhe da obra Rastro de Corpo Sonoro (Karina Machado e Eduardo Borém)

O trabalho parte de textos e entrevistas de Hilda Hilst, em especial daquelas em que a escritora trata o escrever como inspiração que atravessava seu cotidiano, fundindo o espaço, o corpo e seu interior com a própria linguagem.

Apesar do silêncio que envolvia seu anfêmero ato de criar e de traduzir sopros, Hilda imprimiu uma escrita ressonante, harmônica e primorosamente ritmada. Certos trabalhos revelam apropriação de procedimentos musicais e muitos títulos, de poemas e livros, nos carregam inteiramente ao universo sonante; de “Balada de Alzira”, de 1951, a “Cantares do sem Nome e de Partidas”, de 1995.

Investigando o corpo como laboratório sonoro, musical, de comunicação e do silêncio, de consciência e de inconsciência, os artistas Eduardo Borém e Karina Machado discutem a noção de produção artística como algo completamente inserido no cotidiano. Na Casa do Sol, onde Hilda Hilst viveu por quase 40 anos, Karina registrou em fotografia ao longo de 24 horas todos os movimentos de seu corpo, de 5 em 5 minutos. Seu processo, inteiramente acompanhado pelo músico e artista Eduardo Borém, inclui uma tradução desses registros de imagens do corpo em símbolos e desenhos e a transposição destes para um gabarito criado por Eduardo, espécie de partitura musical. A obra apresenta os processos de tradução e uma peça sonora composta por Eduardo Borém, a partir das notas transpostas por Karina Machado.


Abre a tua Boca. E grita este nome meu.

2018
gravura
500 cm x 70 cm

 Detalhe da obra Abre A Tua Boca. E Grita Este Nome Teu (Karina Machado e Eduardo Borém)

Detalhe da obra Abre A Tua Boca. E Grita Este Nome Teu (Karina Machado e Eduardo Borém)

A obra tenta discutir uma questão explícita na vida e nos trabalhos de Hilda Hilst: o lado mais profano e banal do ser humano caminha lado a lado com a ânsia sagrada de espiritualidade. Em entrevista publicada no Cadernos de Literatura Brasileira, em 1999, a poeta ressalta: “Posso blasfemar muito, mas o meu negócio é o sagrado. É Deus mesmo, meu negócio é com Deus.”

A figura divina reúne atributos quase humanos em muitos poemas de Hilda, por vezes permanecendo calada e quase indiferente às suas súplicas; ainda assim, a poeta almejou percebe-la, senti-la, tocá-la, invocando-a no intuito de abeirar terra e céu, divino e profano, puro e obsceno, chamando-a de muitos nomes: Relincho do Infinito, Cara Escura, Pássaro-Poesia, Cão de Pedra e Superfície de Gelo Ancorada no Riso...

Os artistas Eduardo Borém e Karina Machado traduzem as ondas sonoras da voz, registrada durante a leitura de 46 “nomes de Deus” irrogados por Hilda Hilst em seus textos e poemas nas matrizes de xilogravura utilizadas para "gravarem e fixarem o som" em um fino papel de algodão.


Dicas e referências:

Para quem quiser conhecer mais da Hilda, recomendo dois livros, minhas principais fonte de pesquisa: Da Poesia (a obra poética completa da escritora) e Fico Besta Quando Me Entendem (uma coletânea de entrevistas, livro instigante e delicioso de ler).